quinta-feira, 24 de março de 2011


Elas vão de bike


E voltam. Quatro garotas de VIDA SIMPLES contam como é a experiência cotidiana de se deslocar de bicicleta pelas ruas de São Paulo


fotos Alexia Santi e Guilherme Gomes

A esportistaBicicleta para mim combina com aventura, com emoção. Lembro o dia em que a magrela virou integrante da família – até minha mãe aprendeu a dar suas pedaladas quando os filhos eufóricos se equilibraram nas bikes pela primeira vez. Em parques e fins de semana no campo lá estava ela, meu instrumento de exploração de territórios menos domesticados, trilhas ríspidas de terra, muita buraqueira, desníveis e paisagens lindas. Um instrumento também para conhecer meu próprio corpo, a sensação boa da batida crescente no peito, músculos atiçados, respiração vigorosa. De modo que falar de bicicleta era o mesmo que falar de esporte, de passeio, de prazer.

Bem, até que... há cerca de três anos, em uma viagem pela Europa, fiquei embasbacada com a quantidade de ciclistas circulando pelas ruas de diversas cidades. Moradores que adotaram as magrelas como meio mais saudável e prazeroso de locomoção. Jovens, senhoras, casais. De tudo um pouco. Fiquei com vontade de usar a bicicleta também como transporte. Claro que São Paulo não tem as dimensões daqueles lugares, nem seu trânsito, muito menos a educação dos seus moradores.

Voltando, experimentei passeios de fim de semana por bairros da cidade que pouco conhecia. Fui perdendo o receio e o ambiente, que era hostil, foi ficando mais aprazível. Até que ir ao trabalho se tornou uma opção mais agradável que o carro. Levo uma mochila com uma muda de roupa, um sapato – e uma câmara de pneu, para o caso de ele furar no meio do caminho (o que já aconteceu duas vezes). Já fiz até um curso de mecânica próprio para bicicleta.

Minha magrela Josefina é uma mountain bike, adaptada para montanha e trilhas de terra. Não é exatamente a bicicleta mais aconselhada para o asfalto, mas no fim das contas deparei na urbe com ruas mais esburacadas que um queijo suíço, muito sobe-e-desce – fora os carros, ônibus e motos para dividir o caminho. Praticamente um ambiente selvagem.

E quer saber? Bicicleta para mim ainda combina com aventura, com emoção. Aventura de descobrir outras paisagens da cidade, de novos ângulos, aprendendo a pedalar com atenção redobrada. E emoção de circular pelas ruas em uma escala menos mecânica e mais humana.

Frequência da casa para o trabalho: 2 vezes por semana
Distância casa-trabalho: 3,2 km
Traje: roupa esportiva, tênis e mochila (com a roupa para o trabalho)
Equipamentos: capacete, pisca-pisca, refletivos,
 hodômetro, bomba de ar, kit de reparo, cadeado, buzina

Marcia Bindo é editora e só caiu de bicicleta uma vez: num parque.

A conscienteNunca tive carro. Tampouco fui ciclista – ou esportista. Fazia pra lá de 15 anos

 que eu não subia em uma bicicleta quando comprei minha dobrável, há um ano.

 A ideia era resolver pequenos deslocamentos, como a ida ao supermercado. 

Era difícil fazer compras e voltar para casa a pé carregando peso.


Logo desenvolvi técnicas de distribuição dos produtos na sacola retornável, que fica presa por um elástico ao bagageiro: pesados por baixo, ovos por último, para não quebrar nem amassar nada. Passei a frequentar sempre um mesmo empório, pois nele é possível deixar a bicicleta dentro da loja, encostada em um canto – o mesmo que faço em farmácias ou lojas. Não demorou para eu testar o caminho para o trabalho (coisa que, no início, jurei que não faria). Das primeiras vezes, vinha com uma amiga. Sozinha, nem pensar, medo. Mas um dia ela faltou e encarei o asfalto sozinha.

Quero ser respeitada, por isso, respeito. Uso os equipamentos de segurança direitinho, sigo as regras de trânsito ao máximo. De vez em quando, ainda dou bronca em motorista que não quer fazer o mesmo – e agradeço quando dão passagem. Tento sempre me fazer vista. Olho no olho, se necessário. No caminho, é claro, há percalços: asfalto irregular, britas espalhadas pela via, carros que passam “voando”. No início do ano, mudei-me de casa (usei a bike para sair por aí procurando um novo apê) e apareceram no trajeto as subidas. Resultado: 15 minutos de descida para ir (mesmo tempo de carro, a metade do ônibus, que dá voltas) e outros 25 para voltar, sendo que os dois últimos quarteirões subo com a bike na mão, não tem jeito. O melhor caminho para mim é sempre o mais bonito. Ruas arborizadas, com pouco trânsito ou carros em menor velocidade são sempre as escolhidas. Não importa que dê mais volta.

Andar de bicicleta é também curtir a cidade. Adoro parar na padaria, atraída pelo cheirinho. Quando a respiração aperta, faço uma pausa e aprecio a vista. Mas talvez a maior recompensa seja descobrir que a tudo a gente se adapta, sem poréns, sem frescuras. Se chove, dobro a bicicleta e pego um ônibus ou táxi. Se cai uma chuva, tomo banho. Se quero sair de vestido, coloco uma legging por baixo. E, se estou com preguiça, deixo a bike em casa. Afinal, pedalar não pode perder uma dimensão: a do prazer.

Frequência da casa para o trabalho: 2 a 4 vezes por semana
Distância casa-trabalho: 3 km
Traje: jeans e all-star (às vezes algo a mais no bagageiro)
Equipamentos: capacete, pisca-pisca, refletivos, cadeado, buzina

Priscilla Santos é repórter e adoraria pedalar em Paris.























A esporádicaAdoro dirigir, tanto carro quanto moto, e não abro mão do conforto que eles me proporcionam. Também não sou muito chegada em esportes, tenho uma rinite alérgica que sempre atrapalhou minha performance física. Por essas e outras, começar a andar de bike foi um grande desafio.

Sou mineira e desde que me mudei para São Paulo, há dois anos, senti dificuldade em encontrar tempo para me exercitar. Acabei fazendo spinning na academia. Sampa tem muitos restaurantes deliciosos e, veja bem, tenho que manter este corpinho. Spinning é um ótimo exercício, mas falta emoção. Andar de bicicleta sem sair do lugar não tem graça, né? Foi aí que resolvi trazer minha bike de Belo Horizonte, uma que ganhei do meu pai há uns dez anos e estava lá enferrujando. Troquei os pneus, levei numa bicicletaria para fazer uma revisão e… voilá! Aos trancos e barrancos, fui para a rua.

Mas a bicicleta para mim é diversão, não meio de transporte, muito menos obrigação. Ando de vez em quando mesmo, até porque dá um trabalho danado ir trabalhar de bike. É longe! E tem que sair bem mais cedo de casa, levar uma “mala” com a roupa que você vai usar naquele dia. Acabo deixando a vaidade um pouco de lado nos dias em que vou ao trabalho de bike. Assumo o jeans, tênis e camiseta, apesar de não ser o meu look predileto. Mas sei que é por uma boa causa.

Geralmente não gosto de pedalar sozinha. Fica mais divertido com as amigas, me sinto mais segura. Tenho medo de assalto, mas não deixo de viver as coisas boas da vida. Adoro sentir aquele ventinho na cara, tem gosto de molecagem! Além do mais, há aquela solidariedade de classe que é superengraçada. Quando encontro outros ciclistas, cumprimento de longe com um sorrisão ou paro para bater um papo.

Mas tem um probleminha. Quase sempre fico com o bumbum dolorido depois dos passeios. Vai ver é por isso que são tão esporádicos!

Frequência da casa para o trabalho: 1 vez a cada 15 dias
Distância casa-trabalho: 7,5 km
Traje: jeans ou short, tênis, camiseta e munhequeiras
Equipamentos: capacete (que era do meu irmão), cadeado

Rita Carvalho é designer e consultora de moda de plantão

A viciadaComprei uma bicicleta impulsionada pela busca de uma nova experiência urbana. Há seis meses, mudei para o centro de São Paulo sozinha, o que exigiu uma redução de orçamento. Ali uma vaga fixa num estacionamento vale ouro. Parei de usar o carro e comecei a ir para o trabalho com minha bike, apelidada Ginger (gengibre em inglês, um poderoso energético). Viciante. Mas a delícia de sentir a temperatura dos dias e noites se misturou com a necessidade de estratégias para contornar as dificuldades.

Percurso: o trajeto até o trabalho é longo, com duras subidas. O cansaço é inevitável. Alterno semanas em que faço absolutamente tudo de bike e outras em que me rendo um ou dois dias a carona, táxi ou ônibus. As ruas secundárias são mais agradáveis, mas escuras à noite. Para driblar os riscos, instalei faróis pisca-pisca na frente e atrás e procuro estar atenta, mas sem paranoia.

Tempo: fiz um teste com um amigo que anda de carro, mora no mesmo prédio e trabalha no mesmo lugar que eu e descobri que fazemos esse deslocamento no mesmo tempo, meia hora. Com a Ginger vou mais rápido que com o ônibus.

Intempéries: minha bike é dobrável. Em dias de chuva ou quando tenho algum programa depois do trabalho, em um minuto ela é reduzida a 1/3 do tamanho e acolhida num porta-malas. A mochila vai amarrada no guidão, mais comprido que o de uma bike normal. Nele também coloco as sacolas, quando faço supermercado.

Mulher de bike: equipada e agindo corretamente, uma ciclista é mais respeitada, mas sim, somos assediadas. É preciso escolher uma roupa leve, que não enrosque, e um sapato firme. As ladeiras fazem suar, por isso às vezes uso saia com bermuda por baixo e tive que me matricular em uma academia no prédio onde trabalho para tomar banho antes de começar a correria da redação.

Em janeiro deste ano vendi o carro e ganhei dois desafios: equilibrar poesia com senso prático.

Frequência da casa para o trabalho: 3 a 5 vezes por semana
Distância casa-trabalho: 7 km
Traje: tênis ou sapato, saia com short por baixo com regata
Equipamentos: capacete, pisca-pisca, refletivos, luvas, cadeado, buzina

Fabiana Rodrigues é designer e corta seu próprio cabelo

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