sábado, 2 de março de 2013

o outro invisível | as bicicletas


hoje faz um ano que juliana ingrid dias foi assassinada atropelada na avenida paulista. morreu gritando:
- hey! olha eu aqui!
gritou isso várias vezes para o motorista de ônibus que vinha das faixas da esquerda, derrubou-a e então, sem poder freiar, sem tempo, outro ônibus atropelou-a. morreu assim, como se invisível fosse.
crianças escravizadas num navio negreiro apreendido pela marinha inglesa, em 1869.
crianças escravizadas num navio negreiro apreendido pela marinha inglesa, em 1869.
pois bem. ciclista na rua é invisível ou é como se fosse. motoristas não vêem ou fazem que não vêem. por que isso?
num primeiro momento, há invisibilidade sim. sem prestar atenção corretamente, o motorista não vê uma série de coisas, principalmente se estiver em velocidade mais alta.  é a cegueira em movimento, bem descrita aqui por um carrólatra inveterado.  clique no link e leia o artigo. e evite essa cegueira andando mais devagar.
há outro tipo de cegueira, a cegueira social. nesse aspecto, o brasileiro é craque.
somos treinados a ignorar o outro, quando estamos em posição de supremacia. sempre imaginamos que o sofrimento que o outro enfrenta é algo de alguém que não está à nossa altura.
essa cegueira sobre o outro manifesta-se naquela frasezinha calhorda que alguns carrólatras gostam de repetir:  ”eu usarei o transporte público, quando ele for decente”.
claro, não decente para ele. é decente para todos os demais brasileiros de classe mais baixa, mas não é para ele. e ele não se preocupa com isso, não vota em político que promete melhorar o transporte público.
essa visão de que o outro pode se submeter a condições às quais ele não se submete (pegar um metrô, lavar uma cueca, lavar seu próprio banheiro, para dar pequenos exemplos…) é a herança maldita da escravidão.
a escravidão treinou o brasileiro a não olhar o outro. afinal, o outro não é como ele. o outro é escravo…
a escravidão treinou o brasileiro a pensar que as pessoas não são todas iguais. o brasileiro não percebe que somos todos, absolutamente todos, absolutamente iguais: quando vamos ao banheiro fazemos as mesmas sujeiras. vomitamos fedendo como qualquer ser que vomite. todos nós somos irrelevantes. todos morreremos e só seremos lembrados no máximo por uma geração, de amigos. em 100 anos ninguém lembrará de nós. todos nós perdemos um tempo desgraçado caçando coisas que não existem: sucesso, felicidade, atenção…
mas não. o brasileiro se acha, ele, especial. ele é “selecionado”. os outros, gente diferenciada…
então, o outro se comete um crime, tem que ir pro pau-de-arara.  o filho dele, se comete um crime, precisa de tratamento, não de cadeia. o outro pode pegar o transporte público e tem que chegar no horário. ele, só pega metrô em paris. ele usa a rua. o outro atrapalha….
é esse o ponto. esse é o ponto mortal. o ponto que causa mortes. a sensação do motorista que acha que, por estar dirigindo um veículo automotor, pode andar na rua como quer, o outro que saia da frente. o trânsito são os outros.
assim, o outro, diante do motorista, é sempre folgado… como são folgados esses pedestres, atravessando fora da faixa! com são folgados esses ciclistas, ocupando a faixa! como são folgados esses gays, se achando cheios de direitos! como são folgados esses negros, querendo cota nas universidades!
esse ranço escravagista aparece no trânsito. e quem diz não sou eu, é roberto damatta, em seu magistral “fé em deus e pé na tábua“:
“A crença de que certas quantidades de álcool são aceitáveis, pois tudo depende do motorista, segue a mesma lógica deste amálgama conflituoso inconsciente entre ideias pessoais de superioridade e ideias de igualdade. Daí a disjuntiva entre a lei para o outro e a compreensão relativizante que conduz à tolerância, ao perdão e à condescendência para os nossos e para a nossa conduta. O famoso Você sabe com quem está falando?, segundo o qual aos inimigos aplica-se a lei e, aos amigos, concede-se toda a compreensão, tem como ponto de partida nossa visão hierárquica do mundo e teima ignorar um outro lado: o igualitarismo que tudo complica.”
pois é. para o brasileiro, o outro é estorvo. e estorvo empurra-se pra lá…
foi isso que passou pela cabeça do motorista de ônibus que derrubou minha amiga julie dias no asfalto. foi esse “foda-se!” que matou uma menina linda, uma bióloga que exercia função importante num banco de sangue de cordões umbilicais.
dane-se o outro. é….
essa visão de mundo é que justifica ignorar o morador de rua, ou tacar fogo nele.  é a visão que justifica parar na frente da farmácia “por cinco minutinhos”. fazer fila dupla na porta das escolas. andar acima da velocidade. dirigir bêbado…
e, por esses atos, pessoas morrem. minha amiga morreu assim. não só ela. há 8 anos, 6 meses e 23 dias minha prima foi assassinada morta por um motorista bêbado que numa contra-mão bateu no táxi onde ela estava.
é. as pessoas que dirigem de qualquer forma por aí não tem ideia da dor que causam a uma família quando matam alguém. e não precisam atropelar para matar, basta ligar o carro. pois sim, afinal a poluição dos carros mata 4.000 pessoas ao ano em são paulo. mata mais que atropelamentos, batidas e etc. todo motorista é, portanto, um pouco assassino, cada vez que gira a chave no contato. quanto maior o motor…
12 pessoas morrem por dia em são paulo de males causados e agravados pela poluição dos carros. diversas outras atropeladas por eles.  mas ninguém mexe uma palha pra mudar isso.
enquanto isso, tem gente feliz dentro do seu carrinho poluidor, cada vez mais lento numa cidade congestionada e poluída, achando que sua lentidão é sempre culpa dos outros….
é…

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