sexta-feira, 15 de março de 2013



o que sobrou da bicicleta de David, por @danielguth
o que sobrou da bicicleta de David, por @danielguth
Já era madrugada e a mente seguia numa espiral de angustiantes lembranças. Que dia o de ontem!
A imagem do olhar assustado da “Srª Antônia”, a mãe do jovem David, me faz refletir imediatamente acerca das injustiças deste país.
Muito pelo ineditismo de um roteiro digno de uma obra do maldito Zé do Caixão, talvez vejamos um desfecho histórico deste triste episódio.
Será que a justiça – não aquela deturpada pelos meandros das estratégias de um bom advogado de defesa – chegará à secular literatura dos casos de impunidade ungidos pela industria automobilística?
Acompanharemos.
Carteira de Identidade de David, por @danielguth
Carteira de Identidade de David, por @danielguth
Nesta madrugada me flagrei pensando nas manifestações que nos remetem ao primitivo sentimento de injustiça. A fome, por exemplo, faz-nos solidarizar pela violência com que escancara as desigualdades. As condições de saneamento, as favelas, os mendigos, as crackolândias, os orfanatos, as guerras, as doenças sem cura, os hospitais e escolas públicas, enfim, tudo o que nos remete, sem titubear, à dura sociedade esculpida na desigualdade e na EXCLUSÃO.
E pergunto: por que não o trânsito ou a vida que pulsa nas ruas? Será que existe manifestação mais contundente de desigualdade do que as ruas das nossas cidades?
Reflitamos:
1/3 dos paulistanos se deslocam diariamente de carro. 2/3 de outros modos de transporte. A quem se destina a maior fatia do espaço nas ruas? A quem se destaca todo o efetivo da Companhia de Engenharia de Tráfego para a eterna batalha pela manutenção da fluidez?
Será que não estamos excluindo 2/3 da população, através do seu modo de transporte, para incluir 1/3? Esta conta nunca fechou.
Quando você, leitor, caminha por SP, você se sente INCLUÍDO? E quando você, leitor, pedala por SP e não tem um local sequer para estacionar sua bicicleta, você se sente INCLUÍDO?
História rápida
Quando os primeiros automóveis foram introduzidos nas cidades, sua inclusão se deu às custas de muito sangue e protestos. O carro era, naquele momento, um intruso, um elemento exótico não apenas à paisagem mas à real função (milenar) das ruas como espaço público para os encontros, para o comércio, para as trocas e, principalmente, para as crianças brincarem. Tudo se fazia nas ruas e, para a tristeza de mães e pais, as crianças foram as primeiras vítimas desta sanguinária indústria.
Um passeio pela Wall Street antiga, onde os pedestres eram a maioria
Era natural que houvesse uma repulsa aos carros. No entanto, com estratégias de comunicação sedutoras, muito dinheiro e apoio político, as cidades foram se moldando para INCLUIR este intruso. Os protestos cessaram, as crianças foram trancafiadas em playgrounds e o automóvel passou a ocupar, de forma cada vez mais desigual, este espaço que era de TODOS.
Blá, blá, blá e 1 século se passou.
Concluindo
Hoje vemos cidades por todo o planeta numa constante batalha para reverter este equívoco secular. Algumas se anteciparam, como Amsterdam, Copenhague, Paris, Bogotá. Outras estão num rápido processo de re-humanização, como NY, Santiago, Londres, Melbourne.
Por que não SP?
O que nos freia, nos segura, nos mantém numa postura conservadora e individualista de manutenção do “status quo viário”?
A violência do atropelamento de ontem, seguida pelos acontecimentos surrealistas que todos acompanhamos, tem que servir para nossa profunda reflexão e, quiçá, mudança de atitudes e comportamentos. Senão estaremos emburrecendo e repetindo os mesmos erros. Over and over.
Já fomos alertados pelo mantra sartreano de que “o inferno são os outros”. Afinal, conte-nos, o que você aprendeu com o episódio de ontem?
@danielguth

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